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Greenwash

Eu estava pesquisando o que ia ser destacado como exemplo de sustentabilidade aqui no blog nesta semana e dei com um folheto de uma empresa grande – consolidada e europeia – falando sobre suas “janelas ecológicas”. Na verdade o nome da empresa carrega o prefixo “eco”, o que já indica, para quem olha rapidamente o prospecto, um produto ecológico/sustentável. Mas, lendo com mais calma, fiquei sabendo que, além de cuidados com o meio ambiente durante o processo produtivo, os produtos eram feitos com madeira maciça, e não havia nenhuma referência de onde esta madeira era retirada nem alguma certificação ambiental (ISO 14001 ou selo FSC). Desisti da publicação e fiquei com “a pulga atrás da orelha”…

Painel em madeira: será mesmo necessário?

Ontem, li o ótimo texto “Consumo consciente como exercício de cidadania” de autoria de Ricardo Zylbergeld no blog, o “Ecosofando“. Dentre diversos trechos super bem escritos e que explicam claramente uma série de coisas sobre consumo consciente, sustentabilidade e produção ecológica, um em particular caiu como uma luva no que eu vinha pensando. Destaco aqui para vocês acompanharem meu raciocínio:

É muito importante notar que a decisão de consumo, na maioria das vezes, acontece em frações de segundo e que, normalmente, a razão tem pouca (ou nenhuma) participação neste processo, como afirma uma pesquisa apresentada em um artigo recente da revista Veja. Esta pesquisa aponta, também, as estratégias utilizadas pelos fornecedores para estimular (com apelo emocional – impulsividade, emoção, sentidos) nossa decisão de compra (aromas artificiais, sensação de negócio imperdível, o status que este produto proporciona, etc…etc…etc…)“.

A propaganda da janela me intrigou, mas o que venho notando em muitos projetos de design de interiores é uma maior valorização da madeira como elemento de composição. Parece que o efeito de se declarar que tal madeira está em extinção e que corremos um grande risco ao exterminarmos com as poucas florestas que ainda existem, aguçou o interesse por este material. Claro, a madeira sempre esteve no centro de qualquer bom projeto de interiores, mas o que me parece é que, agora em que todos concordam que “não podemos destruir nossas florestas”, ela se tornou um símbolo de status, exatamente como Ricardo coloca no texto (“…o status que este produto proporciona…”). O que me parece é que, agora que a madeira é mais rara – e mais cara – certamente, ter uma janela em madeira maciça ou um painel em madeira – por mais que se declare ser de demolição ou de florestas renováveis – é uma forma de mostrar que se tem em casa algo que nao pode ser consumido pela maioria…

O trabalho com papéis de parede pode substituir bem o uso da madeira.

Antes que alguem argumente que a madeira de demoliçãao pode ser usada sem susto, pois trata-se de um reaproveitamento de material que iria pro lixo, e que madeira certificada pode ser usada, queria tocar num ponto: porque a necessidade de uso destes materiais em um projeto de interiores, quando existem tantos que reproduzem a madeira quase que à perfeicao? Porque criar um painel de madeira numa parede, se um painel de gesso (ou de bambu), um trabalho com papel de parede ou mesmo com pintura de cores diferentes, pode ser feito? Quem conhece materiais o suficiente e preza pelo meio ambiente, sabe que existem diversas outras opções que podem ser exploradas na hora de uma composição, evitando-se utilizar qualquer tipo de madeira em um projeto.

Um "deserto verde": será este o futuro?

Quero declarar que adoro madeira: é um material único, com uma “pegada natural” que a gente “sente”, como nenhum outro. Acho lindas as propostas com madeira de demolição e com madeira de reflorestamento (apesar de já pensar nos “desertos verdes”, florestas sem vida, assunto sobre o qual já publiquei um texto há anos atrás), e vou continuar divulgando-os aqui no blog. Mas acho que os profissionais que lidam com construção civil, design, arquitetura e design de interiores devem se perguntar: é realmente importante utilizar a madeira, um recurso escasso e/ou cheio de restrições, como pedra de toque deste projeto? Espaço aberto para discussões e principalmente reflexões: cada profissional tem responsabilidade sobre o que especifica e diz para seu cliente que é “símbolo de status“. E cada um de nós, individualmente, pode fazer sua parte na hora de optar por um ou outro produto.

PS: o título deste post refere-se à expressão utilizada para designar produtos e serviços com marketing ecológico mas que na verdade não são sustentáveis. Também chamado de “falso verde”.

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4 Respostas para “Greenwash

  1. Marisa Lima disse:

    Adorei a matéria.
    Gosto muito de madeira, ela aquece o ambiente, mas temos que ser mais conscientes.
    Eu como sempre fui “verde” apoio tudo o que for para o desenvolvimento sustentável.
    Vi outro dia um papel de parede igualzinho a madeira de demolição lindo.
    Mas papel vem da madeira, e aí?
    Aí temos que ver qual produto produz o menor impacto ambiental.

  2. Maria Alice disse:

    Oi Marisa, obrigada pelo comentário. Acho que o importante é refletir até que ponto precisamos mesmo da madeira nos projetos. Materiais alternativos existem, o papel foi um exemplo, talvez imperfeito, mas menos daninho que as peças de madeira em si.
    Bjs!

  3. Bem, não tenho muita formação no assunto, mas normalmente a celulose que deriva o papel é produzido a partir de eucaliptos, ou seja madeira de reflorestamento. E as empresas do segmento papel e celulose costumam ser comprometidas com o meio ambiente, pois são muito visadas e auditadas em todos esses aspectos. A cada metragem cúbica de floresta de eucaliptos, há sempre um corresponde projeto ambiental.
    Sandra
    http://projetandopessoas.blogspot.com//

  4. Maria Alice disse:

    Olá Sandra, muito obrigada pela visita e pelo comentário. De fato as indústrias que cultivam eucalipto para corte têm muita auditagem em cima. Mas temos que ter sempre em mente a necessidade de estar por dentro da produção dos materiais que usamos em projetos, inclusive dos já “acreditados”.
    Um abraço!

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