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Guignard

Lugarejo de Minas se desvanecendo: o tema e a forma de representar o que desejava de modo suave, delicado...

Lugarejo de Minas se desvanecendo: o tema e a forma de representar o que desejava de modo suave, delicado…

Tá certo que eu tenho demorado a falar de ARTE por aqui – assim, com letra maíuscula, texto em negrito e tudo mais  … Mas também quando eu falo eu capricho, né? Vocês hão de concordar…

É por isso que destaco Alberto da Veiga Guignard hoje: houve uma retrospectiva de sua carreira há pouco em São Paulo, e li uma belíssima matéria a seu respeito no Estadãoveja aqui. E aí tive vontade de destacar este pintor “meio desconhecido” por quem não é da área, e super reverenciado por quem é do meio. Ou por quem, como eu, gosta do que é bom, do que toca, do que transcende.

"Natureza morta com vasos de antúrios" de 1952: "meio" Tarsila, "meio Cézanne"

“Natureza morta com vasos de antúrios” de 1952: “meio” Tarsila, “meio” Cézanne

A mostra foi no MAM de São Paulo, e o crítico Paulo Sergio Duarte foi seu curador. Duarte escolheu quatro temas da obra do autor para sintetizar sua trajetória, de forma que a retrospectiva atendesse aos iniciados mas também a quem não conhece o verdadeiro lugar desse ‘MESTRE’ – não tenho medo em afirmar – na história da arte moderna brasileira, Retratos, naturezas mortas, obras sacras e paisagens foram as micro divisões da expo que contou com apenas 72 obras: o suficiente para deixar clara a genialidade do pintor.

Guignard não tinha “preconceito de gênero”, isto é, pintava o que lhe apetecesse, e só por isso já o acho um exemplo: há pintores que se especializam em retratos, em marinhas, em flores, em pessoas. Há outros que pintam livremente, mas sempre acabam no mesmo “assunto”. Já Guignard pintava com o coração e por isso o que houvesse era um bom motivo para ser registrado – e bem registrado.

"Retrato de Maria Clara Machado", óleo sobre tela da década 30: um exemplo de perfeição no tema.

“Retrato de Maria Clara Machado”, óleo sobre tela da década 30: um exemplo de perfeição no tema.

Nascido em Nova Friburgo em 1896, Guignard formou-se nos museus e academias da Europa, exatamente numa época – os anos 1920 – em que nasciam movimentos, contestações, ideários, salões transgressivos. Alguns o refutam como um pintor naïve – ou naïf, significando que ele era um autodidata sem preparação acadêmica específica – coisa com a qual Duarte, o curador, discorda: “não se trata de um autodidata, mas de um artista formado em contato com movimentos como o cubismo, o expressionismo, o dadaísmo e o surrealismo, cujas escolhas formais são determinadas por sólidos conhecimentos técnicos e históricos”. Segundo ele, Germain Bazin, já em 1946, foi o primeiro a notar uma estreita ligação do pintor com certo traço oriental – e eu já li (e estudei) muito Bazin para saber que este é um crítico dos melhores…  . Daí que esta “ligação” demonstra a formação erudita do artista.

Segundo o curador é possível até mesmo evocar uma certa atração que o surrealismo exerceu sobre Guignard, que conheceu o movimento durante o período em que esteve na Alemanha. Na mostra, três exemplos de colagens surrealistas foram destacadas, por exemplo. E mais que isso: algumas de suas obras que fogem à veracidade poderiam ser definidas também como fantasias surrealistas, oníricas. Mas Guignard é muito mais: um tanto impressionista, um tanto moderno, um tanto de formalidade e um bocado de espontaneidade. Um tanto abstrato – certamente por receber a influência das correntes artísticas do século passado – um tanto Tarsila (?), um tanto Cézanne.

"São Sebastião", de 1961: o tema religioso também traz ótimas criações de Guignard.

“São Sebastião”, de 1961: o tema religioso também traz ótimas criações de Guignard.

Viveu recluso e solitário a maior parte do tempo: nasceu com lábio leporino e as operações realizadas não deram bom resultado, o que acabou levando-o ao alcoolismo. Some-se a isso uma vida familiar e amorosa confusa, poucos amigos leais e um talento superior e “chegamos” a Guignard: um expoente de nossa arte.

A matéria relata que diversas instituições e coleções particulares cederam obras para a exposição – entre elas o MAM daqui do Rio. Verdadeiras preciosidades foram exibidas de modo que os visitantes tivessem uma experiência do caminho feito por Guignard, que gostava mesmo era das montanhas de Minas Gerais: o céu, suas cores, manchas, o povo… tudo que era singelamente belo poderia ser escolhido como tema ou como destaque de uma obra. Influenciou toda a geração de artistas considerados “modernos” em nosso país. Faleceu em 1962 na bela Ouro Preto, interior de Minas, felizmente já consagrado e reconhecido por sua obra.

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