nav-left cat-right
cat-right

Casa Cor SP 2016: a “comedoria” de Guilherme Torres

Uma pequena ideia do belo espaço de Guilherme Torres na Casa Cor© São Paulo deste ano.

Uma pequena ideia do belo espaço de Guilherme Torres na Casa Cor© São Paulo deste ano.

Difícil para mim falar sobre um trabalho de Guilherme Torres sem achar tudo simplesmente sen-sa-ci-o-nal  . Mas, para não ficar na tietagem barata, nem na simples sedução visual, posso dizer a vocês que também fiquei “de cara” logo nas primeiras fotos que vi do espaço. Trabalhar com dois fornecedores “extremos” como a Mekal – que costuma trazer o melhor do futuro mesmo em termos de inox – e com a Neobambu – que só faz coisas excepcionais com um material maravilhoso e difícil como o bambu – me pareceu já um belo desafio que, para um tarimbado Guilherme, não deve ter sido difícil mas… certamente o desafiou e também à sua equipe. Depois, vi muitas imagens e não conseguia compreender direito o quê era o quê: o quê era cozinha, o quê era piso, o quê era parede, o quê era bambu, o quê era aço, o que era passagem, enfim: uma balbúrdia visual e mental.  Mas depois e aos poucos, fui percebendo as sacadas (pequenas e grandes), e achando realmente que foi tudo um belo e grandioso trabalho, e que merecia estar em minha seleção dos melhores da Casa Cor© São Paulo 2016.

Nem parece cozinha: todo o luxo e a beleza das paredes revestidas em mármore e o armário/bancada em corian© que recebe a pia e a máquina de lavar. Clique para ver maior.

Nem parece cozinha: todo o luxo e a beleza das paredes revestidas em mármore e o armário/bancada em corian© que recebe a pia e a máquina de lavar. Clique para ver maior.

Acho que o estilo pessoal de Guilherme passa sempre por trazer algo marcante em cada trabalho. Claro, todo profissional de alta roda quer fazer isso, mas quem consegue, de verdade? Além da coragem, é preciso pesquisa e uma real preocupação com o uso final do espaço, para que não se crie bobagem à toa. E quando se fala em um ambiente funcional como uma cozinha, “aumentada”, digamos assim, pela perspectiva do “futuro”, a coisa complica. Qual será a cozinha do futuro? Pode até não haver o ambiente, se no futuro todo mundo tomar umas tais pílulas que provejam água, proteínas, carboidratos, minerais e outros itens necessários à nossa plena nutrição diária. Pode existir em parte, se as tais pílulas realmente virarem nossa alimentação, mas a gente curtir comer algo “ao estilo antigo”, só por que o hábito de comer vem com a espécie humana desde que a gente nem se lembra. E aí que projetar para um futuro que a gente nem sabe qual vai ser parece muita pretensão, mas já não é assim para um futuro quase imediato, e foi por aí que o Guilherme seguiu.

O belo rebaixo em bambu presente em todo o espaço e, ao fundo, as estantes para livros e outros elementos da "cozinha do futuro".

O belo rebaixo em bambu presente em todo o espaço e, ao fundo, as estantes para livros e outros elementos da “cozinha do futuro”.

Por esta “senda” e prevendo novidades num horizonte nos próximos 10 anos o profissional trabalhou, e as inovações tecnológicas não foram economizadas, ficando até difícil entendê-las somente pelas imagens. Não há um fogão mas uma mesa em inox da Mekal que é acionada por indução magnética e funciona como tal. Qualquer parte dessa mesa pode aquecer uma panela e não ficou claro para mim a questão da segurança, ou seja, sobre como a peça sinaliza onde há partes quentes – o que já se faz com cooktops que funcionam por indução pois já houve acidentes. Não há também uma geladeira e na descrição do espaço (em alguns veículos), se indica que ela “se tornará desnecessária” em futuro próximo, pois haverá uma espécie de armário que acondicionará potes e embalagens indutoras que, sozinhas, congelarão os alimentos. Ou seja: estes recipientes dispensam o ambiente frio sendo congeladores independentes…

O espaço de comer e aquecer: mesa em inox com indução magnética, cadeiras, luminárias pendentes e fechamento com treliça metálica. No banco uma pele de animal.

O espaço de comer e aquecer: mesa em inox com indução magnética, cadeiras, luminárias pendentes e fechamento com treliça metálica. No banco uma pele de animal.

Talvez a beleza e uma boa interpretação do luxo e do novo (velho) conceito de “comedoria” (termo colocado pelo release que recebi da divulgação do espaço do arquiteto) sejam o mais importante neste trabalho. Segundo ele “A comedoria doméstica será o espaço da casa que mais apresentará inovações na próxima década. Fugindo das convenções, lugares comuns e raios ‘gourmetizadores’ (aspas minhas), a proposta de Guilherme Torres apresentada no maior evento de decoração do país elimina de vez o conceito de casa grande e senzala. Escoam pelo ralo a cozinha de ‘uso’, a cozinha ‘gourmet’ e a sala de ‘jantar’ para sair do forno um ambiente acolhedor, atual e que vislumbra as tecnologias que em breve – muito antes de você terminar a sua sobremesa – farão parte do cotidiano familiar.

Detalhe funcional: armários de guardar hortaliças e frutas com caixotes e peças em inox além de embalagens auto indutoras de congelamento.

Detalhe funcional: armários para guarda de alimentos possui caixotes, peças em inox e embalagens auto indutoras de congelamento.

O espaço de comer no centro da casa como um ambiente de alto luxo foi uma diretriz que o projeto assumiu com muita clareza, o que me surpreendeu positivamente e que, em minha opinião, deu muito certo. O jeito de Guilherme projetar é mais para o descontraído, mas neste caso ele meio que “subiu no salto” e fez um espaço bem sofisticado. Há paredes revestidas em mármore, uma bela bancada em Corian© – que na verdade é um armário – que recebe uma imaculada pia branca com torneira na mesma cor, com um jeito moderno mas muito chic. No mesmo lugar, a máquina de lavar se acomoda sem que ninguém suspeite. E são tantas as belezinhas e exclusividades que aparecem aqui e ali que ninguém pode achar que se trata de um espaço menos nobre que um living ou uma suíte.

Um ótimo detalhe do canto da mesa em inox com fechamento em chapa metálica.

Um ótimo detalhe do canto da mesa em inox com fechamento em chapa metálica.

A ousadia de propor um rebaixo de teto e um piso em bambu também é bem coisa de Guilherme Torres. Explico: como as características dessa “comedoria” são bem diferentes das que conhecemos atualmente, não há por que não usar um material que não conviva bem com muita água e gordura. A cozinha do futuro praticamente desconhece estes dois itens e, portanto, o bambu cai muito bem. Além de bonito, fica muito bem colocado. E ainda treliças de metal, cadeiras branquinhas, estantes escuras com muitos livros, lugar para guarda de alimentos – congelados ou não – decoração com cabeças de animais de caça apresentados como trofeus, no melhor estilo homem das cavernas – um contraponto ao futuro que o profissional afirma que virá na verdade.

Em resumo, um espaço bonito de se ver e que nos instiga a refletir: a cozinha em 2026 será este lindo ambiente mais para estar e muito menos para se trabalhar que o arquiteto nos apresenta ou ainda falta muito para isso? Quem viver… verá!

PS: o nome (e o patrocinador) oficial do espaço é “Cozinha Gourmet Todeschini” que, pelo que vi, contribuiu com os armários/estantes. image16

SERVIÇO
CASA COR SÃO PAULO
Jockey Club de São Paulo – Avenida Lineu de Paula Machado, 775
Cidade Jardim – São Paulo – SP
De terça a quinta das 12h às 21h
Sextas, sábados e feriados das 12h às 21h30
Domingos das 12h às 20h
ÚLTIMA SEMANA => Até 10 de julho

Related Posts with Thumbnails

Deixe um Comentário