nav-left cat-right
cat-right

O bom design de Giacomo Tomazzi

O espelho “Alma” design de 2016, é um dos destaques do trabalho de Giacomo Tomazzi. Pode vir em prata ou bronze.

Conheci o trabalho de Giacomo Tomazzi há poucos dias numa das palestras da Semana Design Rio em que ele compartilhou com Amélia Tarozzo e Rejane Carvalho Leite seus pensamentos sobre “O design que reconecta“. Não fui por seu nome e sim pelo de Amélia e Rejane, que conheço de longa data, já tendo escrito textos sobre elas (e seus respectivos caminhos pelo design), para a Revista Revestir . Grata surpresa tive: a lida de Giacomo é das mais interessantes e suscitou este post.

A linda poltrona “Gal” para a Breton. Clique para ver maior.

Foram algumas coincidências: a primeira, a palestra, na qual ele deu um belo panorama de sua vida e de seu trabalho. Rapaz simples nascido em Itajaí, Santa Catarina, insistiu muito para trabalhar com design no Brasil. Como se já não fosse fácil, para ele parece que foi um tanto mais desafiador, visto que até peças com o que tinha em casa ele fez, apenas para não passar em branco. Achei esta uma super lição para mim mesma e para quem pensa em entrar em um caminho difícil como este, num país ainda mais complicado que o normal como é o nosso… 

Pequenas joias, as mesas “Ucello” estão brilhando na Casa Cor© Rio 2018.

Depois, logo no dia seguinte, estive na Casa Cor© Rio, e qual não foi a minha surpresa ao ver várias das peças apresentadas por Giacomo na palestra do dia anterior espalhadas em vários dos espaços da mostra. Uma delas me encantou particularmente: as mesinhas de apoio “Uccello“, lançadas há pouco pela Milênio Home na feira da ABIMAD e já disponibilizadas por várias lojas Brasil afora. Elas apareceram como coringa em vários dos espaços e são bonitas mesmo: design simples complementado por um tampo feita de belas pedras bem trabalhadas em formato orgânico bem interessante.

De volta à palestra, o designer apresentou desde seu berço – pequeno espaço para as primeiras interações com o design de um móvel – até suas últimas e bem boladas criações. A casa paterna, tão simples, tão autêntica, os primeiros protótipos em fino metal, almofadas e até papelão (!), peças mais simples, talvez com menos design e mais vontade de fazer. Ele contou que ouviu, ou aprendeu, que quem quer fazer bem uma coisa, tem que repeti-la 10 mil vezes, ou por 10 anos seguidos – o 10 se repete, mas o importante é refazer, refazer, refazer muito, até fazer bem e fazer melhor, mesmo que você já ache/pense que faz bem… Para mim que, particularmente passo por um momento muito questionador desse tipo de coisa, me encantou e me tocou. Será que eu realmente pratiquei o necessário? Onde e quando será que eu deixei de praticar? 

Banqueta da linha “Improviso“.

Desejoso de iniciar seu caminho em design, em 2010 Giacomo integrou o coletivo “Amor de Madre” e fez parte da turma que criou a linha “Improviso” que na verdade foi um experimento no design, um exercício de produção artesanal de móveis e objetos com materiais que muitas vezes são desvalorizados ou descartados por não possuir valor comercial, sendo classificados como sucata ou lixo. Neste ambiente é que foram criadas peças com materiais acessíveis e recicláveis, e resultando em mobiliário com baixa tecnologia de produção e baixo impacto ambiental. Importante ressaltar também que eram peças feitas à mão, imperfeitas e com uma pitada de bom humor – características de nossa cultura.

Simples e muito bonita, a luminária “Junina” tem dois tamanhos.

Logo em seguida vem uma primeira peça que assina sozinho: a luminária “Junina“, faz alusão às tradicionais fogueiras das festas de São João realizadas em todo o Brasil. Toda feita em madeira fixada em cavilhas com lâmpadas e fios amarelos que não ficam visíveis do lado de fora, é das mais interessantes.

O elegante aparador “Andaime” da Clami Design.

Em 2012 é perceptível seu desenvolvimento através da linha “Andaime“: encomendada pela Clami Design (do grupo Dpot), deveria ser uma linha inspirada em São Paulo, a ser lançada durante o Design Weekend – evento de destaque no design que acontece anualmente na cidade. Observando a metrópole foi fácil reduzir as construções e sua estética de em aço e vidro a linhas também feitas nestes materiais. Com um desenho ortogonal o resultado foi leve, apesar das estruturas em aço inox combinadas a prateleiras em vidro. São peças que priorizam a funcionalidade através dos nichos, prateleiras e planos ripados, permitindo a utilização com objetos decorativos, livros, entre outros.

Mesas laterais da linha “Vetro“.

Uma das mais belas coleções de Giácomo, a linha “Vetro” teve como ponto de partida a cidade maravilhosa. As formas são o grande destaque das peças, que lembram as linhas sinuosas e belas da capital carioca com suas curvas que enleiam caminhos, montanhas, parques e praias, além dos sorvetes, pranchas de surf e os belo corpos que caminham pelas areias das praias.

Mesa de centro.

A linha criada em 2016 é composta por três mesas, dois espelhos e um aparador e é possível dizer que houve grande influência do design dos anos 70, como por exemplo o uso vidro âmbar, mas o resultado de grande leveza devido à natureza do material deixou tudo bastante fluido.

No ano passado Giacomo efetuou uma profunda pesquisa sobre o Movimento Modernista brasileiro. Baseando-se nos trabalhos de arquitetos e artistas do período, o designer resgatou formas lúdicas e orgânicas utilizadas por Burle Marx em seus projetos paisagísticos, linhas sinuosas que Niemeyer usava em projetos, a leveza dos elementos do Instituto Moreira Salles projetado por Olavo Redig de Campos, traços leves e fluídos dos painéis de Portinari, entre outros. A coleção resultante traz uma série de peças as mais interessantes. Várias delas estão sendo lançadas e algumas já estão no mercado, enquanto outras estão em processo de lançamento e divulgação, aparecendo em diversas mostras e eventos de design e decoração. Vamos ver algumas delas.

Bem ao gosto de antigamente, o “Bar Modernista“.

O “Bar Modernista” é composto por uma caixa de vidro incolor bronze com estrutura em latão polido, portas em vidro laminado canelado e puxadores redondos em vidro bronze. A porta possui um desenho orgânico e é maior que os limites da caixa, bem ao estilo retrô. Trata-se de um resgate dos móveis de guardar bebidas, copos, louças e outros objetos para jantar, trazendo uma memória afetiva pelo uso de materiais e peças comuns nas casas brasileiras de outrora.

Os três modelos dos “Tapetes Modernistas” disponíveis na By Kamy. Clique para ver maior.

Os “Tapetes Modernistas” feitos para a By Kamy são uma sequência de três peças com o uso de sobretons e uma cor de destaque, para uso em halls, salas de estar, jantar, dormitórios, escritórios, entre outros ambientes internos e externos. Foram feitos no material “Revolution®“, exclusivo da empresa, feito com uma trama sintética, agradável ao toque e com ótimo isolamento termo-acústico. A montagem das peças é totalmente artesanal, permitindo múltiplas composições.

A especialíssima poltrona “Bo“.

Já em 2018, numa reverência especial a Lina Bo Bardi, Giacomo criou quatro peças especiais onde a funcionalidade encontra formas ora fluidas, ora geométricas, com mescla de processos industriais e artesanais: uma poltrona, um pufe, um tapete e uma luminária. A poltrona e pufe “Bo” têm forte influência dos projetos de mobiliário de Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha e Flávio de Carvalho. O design é dos mais simples e dos mais inteligentes. Senta-se baixo e relaxado em um círculo de 90 centímetros de diâmetro que lhe dá uma força estética de extrema leveza e purismo geométrico. A estrutura em tubo metálico com pintura eletrostática na cor preto e pés em latão, possui assento em couro sola e almofada de cabeça em pele de ovelha. O pufe acompanha a estrutura e o couro sola.

No “Tapete Pompéia“, alguns detalhes do prédio foram esculpidos à mão, como os muxarabis das janelas e a flor de mandacaru. Clique para ver maior.

O “Tapete Pompéia” foi totalmente inspirado em linhas e no design do SESC Pompéia, icônico projeto de Lina. Composto por formas que remetem às janelas e outros elementos arquitetônicos do edifício é feito em processo de produção totalmente artesanal. Executado em fios de nylon, com nuances de cinzas e vermelhos, cores sempre presentes nos projetos da arquiteta.

Super interessante design da “Luminária Modernista“.

A “Luminária Modernista” segue a linha de 2017 como uma peça de desenho autoral, composta por um segmento principal de curvas suaves que confere personalidade e leveza. É composta por uma estrutura principal em tubo de latão escovado com base em madeira maciça jatobá. A base dá apoio e contrapeso por onde a estrutura metálica atravessa por um furo circular. Usa lâmpada halopin LED e cúpula em vidro leitoso e é indicada para uso residencial.

Agora é o momento de Giacomo Tomazzi. Há várias peças aparecendo, uma linha com 15 peças na Breton está em lançamento, outras em preparo, enfim, ele está “bombando” como se diz. Como gostei muito de seu empenho pessoal – leia-se verdadeira “paixão pelo design” – e de seus trabalhos acho que “uma estrela está nascendo” no cenário nacional do design. O que é ótimo pois precisamos de muitos como ele, na verdade. Parabéns Giacomo, e seja muito bem vindo! 

Related Posts with Thumbnails

Deixe um Comentário