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A arquitetura de David Adjaye

Sir David Adjaye, em foto do ano passado, aos 51 anos.

Desde que soube que Sir David Adjaye havia sido escolhido para projetar o primeiro museu de história e cultura afro americana, em plena Washington, me interessei por sua carreira. Afinal de contas os contrastes – e embates – são muitos: o que tinha feito com que uma das ditas “maiores democracias do mundo”, que sofre com uma série de preconceitos, dramas e discussões internos sobre raça, cor e aceitação de sua própria população negra havia visto num estrangeiro negro para convidá-lo a criar um museu, que não só reafirma a cultura da raça, discutida como ainda é, um marco na capital desse estado nação tão complexo? Aos poucos percebi que não era pouca coisa e que a pessoa, o arquiteto, o profissional, eram muito mais que apenas uma estampa, mas uma miríade de predicados – e que havia sido escolhido com justiça por um monte de motivos.

Uma das “joias da coroa” da carreira de David Adjaye: a Escola de Administração Skolkovo em Moscou. Clique para ver maior.

De família originária de Gana, com pai diplomata, nasce na Tanzânia, e passa pelo Egito, Iemen e pelo Líbano antes de se fixar na Inglaterra aos nove anos. Graduou-se arquiteto na London South Bank University em 1990 e tornou-se professor no Royal College of Art, após curtos períodos de trabalho nos estúdios de David Chipperfield (em Londres) e de Eduardo Souto de Moura (no Porto). Em 1994 abre escritório próprio em parceria com William Russell com sede no norte de Londres. Este escritório foi dissolvido em 2000, quando Adjaye estabeleceu seu próprio estúdio, o Adjaye Associates, que hoje tem sedes em Londres, Nova York e Accra em Gana, na África, – e projetos nos EUA, Reino Unido, Europa, África, Ásia e Oriente Médio.

Simples e ‘no ponto”: o Museu de Arte Contemporânea em Denver, nos EUA. Clique para ver maior.

Aos poucos foi realizando trabalhos que lhe trouxeram reconhecimento e uma certa projeção, tais como exposições, casas particulares e colaborações com artistas. Projetou casas para o designer Alexander McQueen, para o artista Jake Chapman, para o fotógrafo Juergen Teller, para o ator Ewan McGregor e para os artistas Tim Noble e Sue Webster. Para o artista Chris Ofili, ele projetou um novo estúdio e uma casa de praia em Port of Spain. Trabalhou com Ofili na criação de um ambiente chamado “Upper Room“, que foi adquirido pela Tate Britain e causou um debate na mídia britânica. Adjaye colaborou com o artista Olafur Eliasson para criar uma instalação de luz chamada “Your black horizon“, na Bienal de Veneza em 2005. Houve ainda a Escola de Administração Skolkovo em Moscou, concluída ainda 2010. E em 2009, surgiu o convite para o projeto do museu em Washington.

Belo e reconhecido internacionalmente, o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana em Washington D.C., EUA, projetou a carreira de David Adjaye. Clique para ver maior.

Seu maior projeto até o momento, o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana do Smithsonian Institute está avaliado em cerca de 540 milhões de dólares, foi inaugurado no fim de 2016 e nomeado evento cultural daquele ano pelo New York Times. Mas vamos falar dele exclusivamente em outro post. O fato é que este projeto catapultou David Adjaye e sua equipe para mais e mais e projetos de muito interesse a nível mundial. E sua personalidade também.

Ofili’s Upper Room” de 2002: controvérsia. Clique para ver maior.

Trabalhos recentes incluem o Museu de Arte Contemporânea em Denver, o Centro Nobel da Paz em Oslo, o esquema de habitação social Sugar Hill no Harlem, Nova Iorque, de 2015 e o complexo de varejo e arte da Fundação Aishti em Beirute. Entre os principais projetos em andamento estão um novo lar para o Studio Museum, também no Harlem, Nova York, um novo edifício-sede para a Corporação Financeira Internacional em Dacar e o recém anunciado Memorial Nacional do Holocausto e Centro de Aprendizagem, em Londres. Agora em 2018, projetos da Adjaye Associates para a Catedral Nacional de Gana foram revelados pelo presidente de Gana, Nana Addo Dankwa Akufo-Addo.

O Centro Nobel da Paz em Oslo foi remodelado internamente e conta com um novo portal na entrada. Clique para ver maior.

Adjaye é atualmente professor visitante na Escola de Arquitetura na Universidade de Princeton, membro do RIBA Chartered – Royal Institute of British Architects – membro honorário da AIA – American Institute of Architects – membro honorário estrangeiro da Academia Americana de Artes e Letras e membro sênior do Design Futures Council. Também é membro do Conselho Consultivo do Instituto de Arquitetura de Barcelona e também membro dos Conselhos Consultivos do Instituto de Arquitetura de Barcelona e do Programa Cidades da LSE. Em 2017, Adjaye foi condecorado por Sua Majestade, a Rainha, por serviços de arquitetura, após o prêmio anterior de um OBE em 2007. Ou seja, agora ele tem o título de “Sir“, bastante cobiçado, mas alcançado por poucos. Também no ano passado ele foi reconhecido como uma das 100 pessoas mais influentes do ano pela revista Time. Ele também recebeu o título de Design Miami / Artista do Ano em 2011, o Prêmio Inovador do Wall Street Journal em 2013 e a Medalha de Design de Londres Panerai do London Design Festival. Ufa, quanta coisa, hein?

Fachada da casa de Ewan McGregor. Clique para ver maior.

São muitos reconhecimentos, mas o mais importante está nas imagens: a arquitetura de Sir Adjaye. Com um jeito simples e direto, sem grandes invencionices, chegada a um minimalismo prático e a um classicismo bem atual, David Adjaye dá seu recado de forma elegante e bem pensada. Tem um bocado da tradição europeia e americana, mas acho que ele traz o novo, algo de renovador e refrescante de que precisamos sempre em todas as áreas do saber. E é um marco que alguém de passado quase nômade consiga se afirmar como um profissional bastante respeitado e influente na cena mundial. Torço por ele e por todos os jovens que ele apoia e inspira, a nível mundial. É por mérito e trabalho que ele chegou lá. Espero que haja muitos como ele com o passar do tempo.

Também atuando em design, Adjaye assinou esta cadeira para a Knoll em 2013 dentro da “The Washington Collection“.

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